quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Lembranças do Engenho Novo.

“Mais de dez mil moradores de pelo menos três comunidades do Engenho Novo, no subúrbio do Rio, vão ser beneficiados com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Mais de 200 agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) fazem nesta quinta-feira (6) a ocupação das comunidades.” (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2011/01/mais-de-200-policiais-do-bope-vao-ocupar-favelas-para-instalacao-de-upp.html)

Engenho Novo

Com essa notícia, comecei meu dia. Engenho Novo é o bairro onde passei a minha infância e pré-adolescência. Vivi lá do nascimento até os treze anos, e é deste bairro que tenho as mais tenras lembranças.

O Engenho Novo é subúrbio da Central do Brasil. Para você que não nasceu ou viveu no Rio de Janeiro ou não entende essa referência geográfica genuinamente carioca, vou explicar. O Rio conta com duas grandes linhas férreas: uma começa na Estrada de Ferro Central do Brasil e a outra na Estrada de Ferro Leopoldina. De lá partem trens metropolitanos que percorrem diferentes bairros. Cada uma dessas estações centrais dá início a um roteiro específico. E todos os bairros por onde passam as linhas do trem é conhecido como subúrbio. Neles existem uma estação, onde sobem e descem centenas de passageiros, todos os dias. Desta forma, o Engenho Novo é um bairro que pertence a rede férrea da Central do Brasil.

Além da estação ferroviária, o bairro é cercado por muitos morros, que são habitados por diferentes comunidades. A rua que eu morei termina, ainda hoje, em uma delas – Cabuçu. Não sei se ainda tem o mesmo nome, hoje em dia. Sempre tivemos convivência pacífica. Subia o morro pra ir na casa da Eunice, que era doméstica na casa de meus pais. Não me recordo de qualquer constrangimento ou perigo por causa disso…É claro que estou falando de muitos anos atrás. Muita coisa se modificou nessa cidade. O que não mudou é o carinho que tenho pelo Engenho Novo.

Bairro de classe média e média-baixa, muito próximo do Méier que centralizou os grandes investimentos, é desta forma um bairro estagnado economicamente. Quase um bairro-dormitório, hoje em dia. Mas antigamente não era assim.

Existia um cinema na avenida principal a Barão do Bom Retiro: o Santa Alice. Fui frequentadora assídua, sempre acompanhada da avó Dora ou da minha mãe. Era bem pequena. Mais tarde virou templo evangélico, como a maioria dos cinemas independentes do Rio de Janeiro. Lembro ter assistido aos grandes clássicos da Disney, como a Branca de Neve, Cinderela e Mogli.

Também na Barão do Bom Retiro foi inaugurado o primeiro supermercado da região: o “Peg-Pag”. Que mudança no atendimento! Com espanto e alegria, verificamos que nós, os próprios consumidores, poderíamos escolher os produtos nas prateleiras e levarmos sozinhos ao caixa para pagar… Que progresso, sem dúvida!

Havia também a Igreja Nossa Senhora da Consolação, onde fiz minha primeira eucaristia e onde ia a missa aos domingos. Anexo a ela, ficava o Liceu Santa Rita de Cássia. Simone, minha irmã, aprendeu a ler nessa escola… Parece que foi ontem. A igreja ainda existe, a escola, não sei.

Também tinha o Vitória Tênis Clube . Ficava na rua que eu morava. Do Vitória lembro das matinês nos carnavais e da piscina de águas cristalinas e refrescantes.

Mas de todas as lembranças, a maior delas é da Oficina – Mecânica Grão Pará – que pertencia ao meu avô Manoel, e era onde meu pai trabalhava. Aliás, meu pai e meu padrasto. Cresci ali, naquele corredor comprido, onde ficava a empresa. Tudo muito cheio de graxa e barulho dos tornos mecânicos. Mas era nosso. Tinha vida. Eu e meus primos brincávamos lá. Subíamos no caminhão pra brincar na carroceria. Não lembro de termos caído, se quer de algum machucado. Meninas e meninos brincavam juntos e não era problema pra ninguém.

Na casa da Tia Adélia, que também ficava na Rua Grão Pará, estudei piano. Pelo menos, tentei. Confesso que meio na marra. A melhor lembrança é estar ao piano, tocando uma pecinha qualquer e, ao término, ser aplaudia pelo meu pai, que entrara sem eu perceber. Jamais esquecerei o primeiro e, talvez, o único aplauso dele, na minha vida, já que foi embora desse mundo tão cedo...

Outra hora falo mais do Engenho Novo para vocês. Lembranças devem vir em doses homeopáticas, senão podem ter contra-indicações. Elas fazem chorar!

Sucesso para a operação do Bope na região. Viver em paz é fundamental.

8 comentários:

  1. Isso mesmo!! Vc é a Capixaba mais carioca q eu conheço rsrs. Parabéns, muito bem explicado. Só assim poderemos andar mais tranquilos pela Marechal Rondon e pela Vinte e Quatro de maio, vias importantes que até ontem pelo menos eram super perigosas de se andar até de manhã. Também faço votos que o BOPE acabe com toda essa violência do Rio de Janeiro.
    Bjs,

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  2. Minha filha , estou pasma de saber que voce se lembra tanto assim , não acompanhei a sua inancia mais de algumas coisas eume lembro como do sssseu pai ,sua avó, o corredor da lateral da casa a casa de voces ,são coisas que não apagarão da minha mente aos 67 anos, arua em que voces moravam sempre que passo pelo Engenho Novo me vem a lembranças de voces. bjos no seu coração voce tornouse ESPECIAL yEDA OU Deda como era chamada.

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  3. Querida Denise,acho lindo tudo o que você escreve,leio tudo que você posta no seu blog,parabéns por este dom belíssimo.
    Um grande abraço,
    Mônica.

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  4. OLá Denise, Meu nome é Helion Holanda, tenho 46 anos e fui aluno do Liceu Santa Rita de Cassia, e estou tentando achar algum dos meus colegas daquela época, mas como tem muito tempo, não consigo achar ninguem. Voce estudou lá ou conhece alguem daquela época que ainda mantenha contato?

    Grato,

    Helion

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  5. Ei, Helion. Sim, conheço. Minha irmã Simone e meu primo Betinho estudaram lá sim. Eles têm mais ou menos a sua idade. Mande seu email para mim: denisenpa@gmail.com
    Um abração.

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  6. Oi Denise , você mexeu na minha caixa de lembranças maravilhosas. também cresci no Engenho Novo , pertinho de você , na Rua Pelotas. estudei no Liceu Santa Rita de Cássia , joguei bola no Vitória e lembro da oficina da sua família. lembro de algumas pessoas da Grão Pará , Ronaldo , Joãozinho ( meu xará ) , Luiz Alexandre e Carlos ( que moravam na esquina da Pelotas ) , Darana e Deusa ... enfim , bons tempos aqueles anos 70 / 80 !!! hoje tenho 45 anos , moro em São Conrado e sempre passo por lá , até pra matar a saudade. muito me fez bem essa sua postagem !! grande beijo !!! fica na paz.

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  7. Oi Denise lendo seu depoimento me parecia que esse bairro era mesmo td de bom,pois agora Deus me livre morar nesse lugar...,eu trabalhei durante uns 6 anos ai no hospital vital na rua Visconde de Sta Cruz que e até hoje um perigo so,muitos tiros,muitos assaltos a nos funcionarios,pouco ou nenhum comércio por perto ou seja um horror!!!! esse lugar,e olha q eu moro na baixada hein! não sei em q epoca vc fala de tanto carinho desse lugar,mais so o tempo q eu trabalhei por ai era um perigo q so.

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  8. Morei no Engenho Novo nos anos 60 até meados dos 70. Foram longos anos por lá. A vida naquela época, com certeza, era bem diferente da de hoje em dia. Não só no Engenho Novo como em todos os outros lugares... Infelizmente a violência se alastrou. Mas não é caso perdido. Tenho a esperança que com competência, compromisso e honestidade as coisas podem se arranjar. Também precisamos de fé, solidariedade e outros valores um tanto esquecidos! Mexer no baú das doces lembranças é um dos meus passatempos favoritos. Significa que a gente viveu num tempo bom, que foi feliz, que teve o privilégio de ter tido coisas gostosas na história, que valem até uma lágrima de saudade no cantinho do olho! Um abraço, Érica e João. Apareçam sempre.

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